TRÊS ANOS DEPOIS. E A MEMÓRIA TAMBÉM TEM LADO?
Três anos depois do ataque de 7 de outubro, famílias israelenses ainda reconstruem suas casas e suas vidas. A pergunta incômoda é: por que algumas memórias desaparecem quando deixam de servir à narrativa política?
Juíz de Ninguém · 7 de outubro de 2026 · 4 min de leitura

Zeev Stein / PikiWiki Israel — CC BY 2.5
Hoje faz três anos. Três anos desde que homens armados atravessaram a fronteira, invadiram comunidades israelenses, mataram cerca de 1.200 pessoas e levaram 251 como reféns. Não aconteceu num filme. Não foi uma metáfora. Aconteceu. E talvez seja justamente por isso que ainda seja tão difícil falar sobre aquele dia sem imediatamente transformar a conversa em uma disputa política. Antes de qualquer debate sobre o que veio depois, existe um fato que não deveria desaparecer: centenas de famílias perderam alguém. E milhares tiveram suas vidas destruídas em poucas horas.

O que acontece com uma comunidade depois que o mundo deixa de olhar?
Durante os primeiros dias, o mundo inteiro viu as imagens. Casas queimadas. Carros destruídos. Famílias procurando parentes. Comunidades inteiras transformadas em cenas de destruição. Depois vieram as manchetes. As discussões. As versões. As acusações. A guerra. E, como acontece tantas vezes, a atenção do mundo foi mudando. Mas para quem perdeu uma casa, um familiar, um amigo ou uma vida que existia antes daquele dia... o calendário continuou contando. Um ano. Dois. Três.
TRÊS ANOS DEPOIS, AINDA EXISTE UMA CASA PARA VOLTAR?
Em lugares como Be'eri, a reconstrução deixou de ser apenas uma questão de tijolos. Reconstruir uma casa significa tentar reconstruir uma rotina. Uma cozinha. Um quarto. Uma rua. Uma vizinhança. Uma sensação mínima de normalidade. Mas existe algo que nenhuma obra consegue reconstruir. A pessoa que não voltou. A cadeira que ficou vazia. A voz que não será mais ouvida. A fotografia que agora pertence a uma memória. É por isso que reconstruir não significa esquecer. Talvez seja justamente o contrário. Talvez reconstruir seja uma maneira de dizer: nós ainda estamos aqui.

““Reconstruir uma casa é relativamente simples. Reconstruir uma vida não é.””
Existe uma imagem que deveria permanecer na nossa memória. Não é apenas a imagem da destruição. É também a imagem de quem voltou para reconstruir. Porque existe uma diferença enorme entre olhar para uma ruína e decidir levantar alguma coisa sobre ela novamente. Algumas famílias poderiam simplesmente partir. Algumas comunidades poderiam desaparecer. Mas há pessoas tentando voltar. Tentando reconstruir. Tentando criar novamente um lugar que possa ser chamado de casa.
MAS O QUE EXATAMENTE DEVEMOS LEMBRAR?
Essa talvez seja a parte mais difícil. Porque lembrar o 7 de outubro não significa ignorar tudo o que aconteceu depois. É possível falar das vítimas israelenses. É possível falar das vítimas palestinas. É possível questionar decisões do governo israelense. É possível condenar ações do Hamas. É possível exigir proteção para civis. É possível discutir a guerra. Tudo isso pode e deve ser debatido. Mas nenhuma dessas discussões precisa apagar o começo. E o começo foi um ataque contra comunidades israelenses. Pessoas foram assassinadas. Pessoas foram sequestradas. Famílias foram destruídas. Isso não precisa de uma explicação ideológica para ser reconhecido.
Condenar o 7 de outubro não significa apoiar tudo o que Israel fez depois. Criticar o governo israelense não significa justificar o que aconteceu naquele dia.
Talvez tenhamos chegado a um ponto em que tudo precisa vir acompanhado de um "mas". Foi um ataque terrorista, mas... Foram assassinados civis, mas... Havia reféns, mas... Famílias foram destruídas, mas... E talvez esse seja exatamente o problema. Algumas mortes parecem precisar de contexto antes de receberem nossa indignação. Outras recebem imediatamente. Como se a dor humana precisasse primeiro passar por uma fronteira política para ser considerada legítima. Não deveria.
E OS REFÉNS?
Há outra parte dessa história que não pode ser esquecida. Os reféns. 251 pessoas foram levadas durante o ataque de 7 de outubro. Por trás desse número existem nomes. Famílias. Filhos. Pais. Irmãos. Pessoas que tinham uma vida antes de se tornarem uma estatística. É fácil falar de números. Mais difícil é imaginar uma família esperando alguém voltar. Um telefone que não toca. Uma porta que continua fechada. Uma fotografia esperando uma pessoa que talvez nunca volte. Quando transformamos pessoas em números, começamos a perder justamente aquilo que a memória deveria preservar: a humanidade.
““251 não é apenas um número. São 251 histórias interrompidas.””
Três anos depois, talvez a pergunta não seja apenas quem ganhou a discussão política. Talvez a pergunta seja outra: o que estamos fazendo com a memória daqueles que morreram? Porque memória também pode ser manipulada. Pode ser usada. Pode ser transformada em propaganda. Pode ser selecionada. Pode ser apagada. E quando isso acontece, as vítimas deixam de ser pessoas. Viraram argumentos. De um lado. Do outro. E nenhuma delas merece isso.
A MEMÓRIA NÃO PRECISA ESCOLHER UM LADO
É possível lembrar as vítimas israelenses sem ignorar as vítimas palestinas. É possível defender os direitos dos palestinos sem apagar o 7 de outubro. É possível condenar o Hamas sem responsabilizar coletivamente todo um povo. É possível criticar o governo de Israel sem relativizar o assassinato de civis. Não são posições incompatíveis. O problema começa quando alguém exige que você escolha uma vítima para poder reconhecer a outra. Como se a compaixão tivesse limite de vagas. Não tem.
O Veredito
“O VEREDITO A MEMÓRIA NÃO PODE SER SELETIVA. Condene o terrorismo. Lembre as vítimas. Não esqueça os reféns. Defenda os civis. Questione governos. Exija responsabilidade. Reconheça o sofrimento palestino. Reconheça o sofrimento israelense. Mas não transforme uma tragédia humana em uma disputa de torcida. Porque uma vida perdida não vira menos valiosa dependendo de quem conta a história. E uma casa reconstruída não apaga uma casa destruída. Três anos depois, talvez a nossa obrigação mais básica seja esta: não esquecer. — Juiz de Ninguém Não tenho poder. Tenho palavras.”
— Juiz de Ninguém
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